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O que é violência?

porque o trabalho preventivo?

O que a ONU nos ensina sobre prevenção da violência

Uma parte significativa de quem eu sou foi moldada à base da violência. Especificamente, o tipo de violência que hoje chamamos de bullying. Muito do que faço hoje em dia é informado pelo meu desejo de que outras pessoas não enfrentem o que enfrentei — e entendo que bullying é apenas uma faceta de um problema maior.

Para prevenir a violência, primeiro precisamos entender o que ela significa. Afinal, é impossível combater o que a gente não conhece. Na busca de respostas, fui atrás de relatórios da Organização das Nações Unidas (ONU) e da Campanha Mundial pela Prevenção da Violência.

Daqui pra frente, estou traduzindo partes de relatórios disponíveis online em inglês.

Como a ONU pensa sobre violência

Em primeiro lugar, precisamos entender que nem toda violência é visível. Quando a televisão nos mostra guerras, assaltos e assassinatos, fica fácil colocar contornos no que significa ser violento.

Entretanto, a noção de violência defendida pela ONU inclui também modalidades invisíveis, sistêmicas, cujos impactos são mais difíceis de mensurar. Afinal, como se mede a dor de passar a infância sendo menosprezado pelos pares? Ou de ser criado por pais ausentes?

Há dois pressupostos assumidos pela ONU que precisam ser declarados.

O primeiro deles é que é possível prevenir a violência. Ainda que a violência esteja presente em muito do que entendemos como experiência humana, também estão presentes iniciativas diversas — religiosas, filosóficas, legais e comunitárias — empenhadas em seu enfrentamento.

O segundo pressuposto diz respeito ao modo de combater a violência: a ONU assume uma abordagem de saúde pública. Isso significa que o olhar da ONU não está voltado para o paciente individual, mas para atos que beneficiem o maior número de pessoas possível.

A abordagem de saúde pública é interdisciplinar e científica, alimentando-se de campos diversos, como medicina, epidemiologia, sociologia, psicologia, criminologia, educação e economia. Ela enfatiza a ação coletiva em cada um desses campos.

Seguindo a lógica do método científico, a abordagem de saúde pública passa por quatro passos:

  1. Reunir tanto conhecimento básico quanto for possível sobre todos os aspectos da violência.
  2. Investigar por que a violência acontece (as causas e correlações, os fatores que aumentam ou diminuem o risco de violência e os fatores que podem ser modificados por intervenção).
  3. Explorar modos de prevenir a violência por meio de intervenções.
  4. Colocar em ação intervenções que pareçam promissoras, disseminando informações e determinando a relação entre custo e efetividade desses programas.

Acima de tudo, o foco de uma abordagem de saúde pública está na prevenção, mais do que na reação à violência.

A definição de violência

A ONU define violência como (a tradução é minha):

“o uso intencional de força física ou poder, por ameaça ou ação, contra si mesmo, outra pessoa ou um grupo ou comunidade, que resulta ou tem alta probabilidade de resultar em ferimento, morte, sofrimento psicológico, mal desenvolvimento ou privação”.

A palavra intencional diz respeito ao ato em si, independentemente de seus resultados. Já a expressão o uso de força física ou poder inclui negligência e todos os tipos de abuso físico, sexual ou psicológico, bem como suicídio e outras ações autoabusivas.

Os resultados possíveis da violência são abrangentes e a razão disso é que não consideremos como violência apenas aquilo que leve a ferimentos ou morte. Há diversos tipos de violência cujas consequências podem ser imediatas ou latentes e durar por muitos anos além do abuso inicial.

Sobre a intencionalidade, a ONU apresenta duas questões importantes:

  • Embora a violência seja distinguida de eventos não intencionais que levem a danos, a presença da intenção de usar força não necessariamente indica a intenção de causar dano. É o caso de adolescentes brigando (socos na cabeça podem causar ferimentos prolongados) ou pais que chacoalham crianças para que parem de chorar (correndo o risco de dano cerebral).
  • Algumas pessoas intencionam machucar as outras, mas, baseadas em suas crenças culturais, não percebem seus atos como violentos (é o caso de maridos que batem em mulheres para ensiná-las como agir adequadamente).

Outros aspectos da violência, mesmo que não declarados explicitamente, estão incluídos na definição. Por exemplo, estão incluídos atos públicos ou privados, reativos (em resposta a eventos anteriores, como provocações) ou proativos (planejados), criminais ou não.

Tipologia da violência

A tipologia proposta pela ONU divide a violência em três categorias, de acordo com as características de quem comete o ato violento:

  • violência auto-infligida;
  • violência interpessoal;
  • violência coletiva.

Esta categorização inicial estabelece diferenças entre a violência que uma pessoa pratica contra si mesma, a violência causada por outro sujeito ou pequeno grupo de sujeitos, e a violência realizada por grupos maiores, como estados, grupos políticos organizados, milícias e organizações terroristas.

Violência auto-infligida

Encontra-se subdividade em compartamento suicida e autoabuso.

Violência interpessoal

Está dividida em duas categorias: em família ou por parceiro íntimo (geralmente em casa) e em comunidade (entre sujeitos que não são parentes e que podem ou não se conhecer (geralmente fora de casa).

Violência coletiva

Está dividida em social, política e econômica.

A natureza do ato violento

A natureza do ato violento pode ser de quatro tipos:

  • física;
  • sexual;
  • psicológica;
  • envolvendo privação ou negligência.
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Esta tipologia, embora imperfeita e longe de ser universalmente aceita, oferece uma estrutura útil para a compreensão dos complexos padrões de violência que ocorrem pelo mundo, incluindo a violência nas vidas cotidianas de pessoas, famílias e comunidades. Ela inclui a natureza dos atos violentos, a relevância da ambientação, a relação entre agente e vítima e — no caso de violência coletiva — as possíveis motivações. Contudo, na pesquisa e na prática, as fronteiras entre os diferentes tipos de violência nem sempre são claras.

O modelo ecológico das raízes da violência

Não há um fator único que explique por que alguns indivíduos se comportam violentamente ou por que a violência é mais prevalente em algumas comunidades do que em outras. A violência é resultado da interação de fatores individuais, relacionais, sociais, culturais e ambientes. Compreender como esses fatores se relacionam com a violência é um dos passos importantes na abordagem de saúde pública da prevenção da violência.

O modelo ecológico considera quatro níveis: individual, relacional, comunitário e social.

Individual

O primeiro nível do modelo ecológico busca identificar os fatores biológicos e de história pessoal que um indivíduo traz em seu comportamento. Em adição a fatores biológicos e demográficos, também são considerados fatores como impulsividade, baixa escolaridade, abuso de substâncias e antecedentes de agressão e abuso. Em outras palavras, este nível do modelo ecológico se concentra nas caraterísticas individuais que aumentam a probabilidade de ser vítima ou perpretador de violência.

Relacional

O segundo nível do modelo ecológico explora como relações sociais próximas — por exemplo, entre pares, parceiros íntimos e membros da família — aumentam o risco de ser vítima de violência ou de praticar violência.

Em casos de violência por um parceiro ou maus tratos a crianças, por exemplo, interagir diariamente ou compartilhar um lar comum com um abusador pode aumentar a oportunidade de encontros violentos. Uma vez que os indivíduos estão unidos em uma relação contínua, é provável que a vítima venha a ser abusada repetidamente pelo agressor.

No caso de violência interpessoal entre jovens, pesquisas mostram que jovens estão muito mais propícios a se envolver com atividades negativas quando esses comportamentos são encorajados ou aprovados por seus amigos. Pares, parceiros e membros da família têm o potencial de modelar o comportamento e as experiências de um indivíduo.

Comunitário

O terceiro nível do modelo ecológico examina os contextos comunitários em que as relações sociais estão mergulhadas — como escolas, locais de trabalho e vizinhanças — e busca identificar as características destes ambientes que estão associadas com se tornar vítima ou perpetrar violência. Um alto nível de mobilidade residencial (em que pessoas não ficam muito tempo em uma determinada habitação, se mudando muitas vezes), heterogeneidade (população altamente diversa, com pouco da “cola” social que mantém comunidades unidas) e alta densidade populacional são exemplos destas características e cada um já foi associada com violência.

Da mesma forma, comunidades caracterizadas por problemas como tráfico de drogas, altos níveis de desemprego ou isolamento social difundido (por exemplo, pessoas que desconhecem seus vizinhos ou não têm envolvimento na comunidade local) também têm maior probabilidade de experimentarem violência.

Pesquisas sobre violência mostram que oportunidades para violência são maiores em alguns contextos comunitários que em outros — por exemplo, em áreas de pobreza ou deterioração física, ou onde há pouco suporte institucional.

Social

O quarto e último nível do modelo ecológico examina os fatores sociais mais amplos que influenciam as taxas de violência. Estão incluídos aqui os fatores que criam um clima adequado para a violência, aqueles que reduzem as inibições contra a violência e aqueles que criam e sustentam lacunas entre diferentes segmentos da sociedade — ou tensões entre diferentes grupos ou países.

Alguns desses fatores incluem:

  • normas culturais que apoiam a violência como um modo aceitável de resolver conflitos;
  • atitudes que tratam suicídio como uma questão de escolha individual em vez de um ato de violência que pode ser prevenido;
  • normas que dão prioridade aos direitos parentais em vez de ao bem-estar das crianças;
  • normas que fortalecem a dominação masculina sobre mulheres e crianças;
  • normas que apoiam o uso de força excessiva pela polícia contra cidadãos;
  • normas que apoiam conflitos políticos.

Os fatores sociais amplos incluem políticas de saúde, educacionais, econômicas e sociais que mantêm altos níveis de desigualdade econômica ou social entre grupos na sociedade.

Conexões complexas

Enquanto alguns fatores de risco possam ser únicos para um tipo particular de violência, os muitos tipos de violência usualmente compartilham vários fatores de risco. As normas culturais predominantes, a pobreza, o isolamento social e outros fatores como abuso de álcool e substância e acesso a armas de fogo são fatores de risco para mais de um tipo de violência.

Como resultado, não é incomum que sujeitos em risco de violência experimentem mais de um tipo de violência. Mulheres correndo risco de violência física por parceiros íntimos, por exemplo, também correm risco de violência sexual.

Também não é incomum detectar relações entre diferentes tipos de violência. Pesquisas mostraram que exposição a violência no lar está associada com se tornar vítima ou perpetrador de violência na adolescência e vida adulta. A experiência de ser rejeitado, negligenciado ou sofrer indiferença nas mãos dos pais dá às crianças maior risco para comportamentos agressivos e antissociais, incluindo comportamentos abusivos quando adultos.

Como prevenir a violência?

Intervenções de saúde pública são tradicionalmente caracterizadas em termos de três níveis de prevenção:

  • Prevenção primária — abordagens que visam prevenir a violência antes que ela ocorra.
  • Prevenção secundária — abordagens que se concentram em respostas imediatas à violência, como cuidados pré-hospitalares, serviços de emergência ou tratamento para doenças sexualmente transmissíveis decorrentes de um estupro.
  • Prevenção terciária — abordagens que se concentram em cuidados de longo prazo frente à violência, como reabilitação e reintegração e tentativas de diminuir traumas e reduzir deficiências de longo prazo associadas com violência.

A violência é um problema multifacetado com raízes biológicas, psicológicas, sociais e ambientais, por isso precisa ser enfrentada em diversos níveis ao mesmo tempo. O modelo ecológico serve um propósito duplo neste sentido: cada nível representa um risco, mas também pode ser pensado como um ponto central para intervenção.

Lidar com a violência em vários níveis envolve cuidar de todos os seguintes aspectos:

  • atentar para fatores de risco individuais e agir para modificar comportamentos de risco individuais;
  • influenciar relações pessoais e trabalhar para criar ambientes familiares saudáveis, bem como oferecer auxílio profissional e apoio para famílias disfuncionais;
  • monitorar locais públicos como escolas, ambientes de trabalho e vizinhanças e agir para tratar de problemas que possam levar à violência;
  • atacar a desigualdade de gênero e atitudes e práticas culturais prejudiciais;
  • agir sobre os fatores culturais, sociais e econômicos mais amplos que contribuem para a violência e agir para mudá-los, incluindo medidas para reduzir o abismo entre os ricos e pobres e para garantir acesso igualitário a bens, serviços e oportunidades.

Em várias partes do mundo, tradições e especificidades culturais às vezes são dadas como justificativas para certas práticas sociais que perpetuam violências. A opressão das mulheres é um dos exemplos mais conhecidos, mas muitos outros podem ser dados.

Normas culturais precisam ser lidadas com sensibilidade e respeito em todos os esforços de prevenção — sensibilidade porque as pessoas com frequência são fervorosamente apegadas às suas tradições, e com respeito porque a cultura com frequência é uma fonte de proteção contra violência. A experiência mostra que é importante conduzir consultas prévias e contínuas com líderes religiosos e tradicionais, grupos leigos e figuras proeminentes na comunidade, como curandeiros tradicionais, na hora de planejar e colocar em ação programas de prevenção à violência.

Sete estratégias para prevenir a violência

A violência pode ser prevenida. Esta não é uma questão de crença, mas uma declaração baseada em evidências. A ONU apresenta sete proposições baseadas em rigorosas revisões de literatura examinando evidências científicas sobre a eficiência de intervenções para prevenir violência interpessoal e auto-infligida:

  1. Desenvolver relações seguras, estáveis e saudáveis entre crianças e seus pais e cuidadores;
  2. Desenvolver habilidades de vida em crianças e adolescentes;
  3. Reduzir a disponibilidade do uso danoso de álcool;
  4. Reduzir o acesso a armas, facas e pesticidas;
  5. Promover igualdade de gênero para prevenir a violência contra mulheres;
  6. Mudar normas culturais e sociais que apoiam a violência;
  7. Criar programas de identificação, cuidado e apoio a vítimas.

Últimas palavras

Os relatórios da Organização das Nações Unidas nos oferecem pistas sobre ações que podem nos ajudar a enfrentar a incidência de violência. Elas devem ser trabalhadas em nível coletivo, mas também individual.

O primeiro passo é sempre juntar informações e criar consciência.

Quando começamos a identificar o que é violência — em especial aquilo que estamos acostumados a ignorar —, podemos finalmente iniciar um trabalho para enfrentá-la. Criar ambientes seguros e relações não-violentas exige disposição e energia, mas é o que precisamos para viver melhor.

Nos tempos de escola, quando eu sofria com bullying, minha vida teria sido melhor se eu ou algum dos profissionais da educação ao meu redor tivéssemos acesso a informação. Eu precisava de apenas uma pessoa armada com conhecimento e disposição para intervir em meu favor e começar um movimento de mudança.

Assim é a vida, todos os dias, em todos os lugares. Que tal ser essa pessoa nos teus círculos sociais?

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